O teto de Igor Araujo já foi literalmente o céu estrelado de Genebra. Sim, o faixa-preta de Jiu-Jitsu chegou a dormir nas ruas da Suíça nos momentos mais desafiadores de sua aventura fora do Brasil. Porém, o que poderia ter sido o roteiro de uma história de desistência – ou até mesmo uma tragédia – tornou-se o prólogo de uma das jornadas mais resilientes do Jiu-Jitsu brasileiro no exterior.
Igor não apenas sobreviveu à “porradaria” de uma carreira com 40 lutas profissionais de MMA; ele decifrou o código de adaptação cultural necessário para transformar uma pequena sala sem alunos em um império com mais de 500 praticantes no coração da Suíça.
Hoje, aos 20 anos de fundação de sua academia, a figura de Igor Araujo transcende a do “casca-grossa” que dividiu treinos e estratégias com lendas como Jon Jones. Igor personifica a evolução do mestre moderno: aquele que entende que o tatame é, acima de tudo, uma ferramenta de lapidação humana. Da agressividade técnica que formou faixas-pretas temidos à sensibilidade de acolher famílias e crianças que buscam qualidade de vida, Igor mudou o foco sem perder a essência.
Confira, a seguir, o papo exclusivo com o professor GMI que ajudou a plantar a bandeira do BJJ em solo suíço.
GRACIEMAG: Este mês a sua academia em Genebra, na Suíça, comemora 20 anos de sucesso. Quais são as principais lições que você aprendeu ao longo dessa jornada?
IGOR ARAUJO: Vinte anos não são vinte dias. Daria para escrever muitos livros. São duas décadas de luta, de aprendizagem, de serviço prestado a um país, a uma população. Aprendi a me adaptar. Era um país novo para mim, uma cultura nova, idioma diferente, as pessoas, o clima…tudo muito diferente. Desde o início me esforcei para me adaptar, sem reclamar, sem querer mudar nada e isso me trouxe uma evolução enorme como ser humano. Entre as lutas e o ensinamento, aprendi que a gente acaba sendo um exemplo por ensinar algo tão incrível como o Jiu-Jitsu.
Como você foi parar na Suíça?
Primeiro eu cheguei na Holanda. Quando saí do Brasil, meu objetivo era lutar no Pride ou no UFC. Então consegui um contato com o Alistair Overeem e fui morar com ele na Holanda. Com o passar do tempo as coisas ficaram complicadas por lá. Eu não tinha grana, e ficou difícil me manter, foi aí que surgiu um convite para dar aulas na Suíça. O início foi bem complicado. Me prometeram algo que não existia. Não tinha aluno, não tinha academia. Não tinha nada do que me falaram. Foi bem complicado, então acabei até dormindo na rua algumas vezes. Mas sempre tranquilo, com a certeza de que Deus tinha algo reservado para mim. Nunca fui negativo. Algumas vezes pensei em voltar para o Brasil, mas o meu conforto é a minha fé em Deus.

Quais são as peculiaridades do mercado do Jiu-Jitsu na Suíça?
O Jiu-Jitsu está bem difundido por aqui atualmente. Quando cheguei tinha duas ou três faixas-pretas no país inteiro. Hoje já tem muito mais gente. Cheguei quando estava engatinhando e tenho orgulho da minha contribuição para o BJJ suíço. Minha academia já passou por várias fases e foi se adaptando à minha vida pessoal. No início o foco era a competição. Como eu tinha os meus objetivos como lutador, a galera que chegava entrava “de gaiato” no trem. Era porradaria de kimono, MMA, sem kimono. Os faixas-pretas formados na minha academia que vieram daquela época são todos cascas-grossíssimas, pois para permanecer treinando era complicado. Tanto que eu nem tinha muitos alunos, até mudar o foco. Depois que parei de lutar MMA, fiquei mais voltado ao ensinamento. Afinal foram 40 lutas profissionais de MMA e centenas de campeonatos de Jiu-Jitsu. O corpo não aguentava mais. Então desde 2015 mudei muito. Hoje em dia a competição não é mais o foco, até porque o público do Jiu-Jitsu mudou. Antes era aquela galera mais apaixonada por lutar, hoje é para todo mundo que gosta de luta, do estilo de vida, mesmo sem gostar de lutar em competições. Tenho mais de 500 alunos. Somente na minha academia são 200 pessoas por dia, de todas as idades e pouquíssimos competem.

Quais foram as suas principais conquistas no Jiu-Jitsu e no MMA e o que elas representam para você?
No MMA eu fiz muita coisa. Lutei nos maiores eventos mundiais. Conheci o mundo todo. Ganhei muitas lutas, cheguei ao UFC, lutei 6 vezes na Rússia, estive entre os melhores do mundo. Treinei o maior de todos os tempos no MMA. Sim, o Jon Jones, quando foi campeão pela primeira vez, eu era o treinador e sparring partner dele, fui um dos participantes do The Ultimate Fighter (reality show americano). Sou três vezes campeão europeu de Jiu-Jitsu, campeão brasileiro, entre muitos outros títulos… Tudo isso sem nunca ter parado de ensinar. Nunca deixei de ser professor.
Além do universo das lutas, você também se destaca nos campos de futebol, certo?
O futebol foi o meu primeiro esporte. Joguei até os 17 anos. Cheguei até ser treinador do time do meu irmão mais novo, isso quando eu tinha uns 13 anos. Sempre fui apaixonado pelo futebol. Então quando estava desacelerando as competições de MMA e de BJJ, apesar de ainda competir hoje em dia, no Master, eu, para não sair 100% do mundo das competições, comecei a pensar nos meus 50, 60, 70 anos, por isso comece a fazer minhas licenças de treinador e trabalhar com futebol. Hoje eu possuo as licenças C e B da UEFA, e C, B e A da CBF, e vou fazer a de profissional este ano. Desde 2018, já fui campeão suíço com minha equipe de sub15, e estou fazendo um percurso muito gratificante no esporte, além de treinar meus filhos que jogam em alto nível, individualmente. Vou indo, vai que dá certo!

Quais são as dicas que você costuma dar a quem tem o sonho de sair do Brasil e viver do Jiu-Jitsu no exterior?
Tenha fé em Deus e trabalhe. Seja forte, paciente e honesto. Ande com pessoas boas, e não se iluda com conquistas que chegam muito rápido, e nem com tapinhas nas costas. Tudo desaparece quando você não tem o que eles precisam. Por isso, foco em quem você ama, e que te ama de verdade.
Qual é o seu grande objetivo para o futuro da carreira?
Um lutador tem duas vidas. Quando está ativo nas lutas e quando para de lutar. Até hoje me encontro “perdido” às vezes, mas a vida é composta por fases. Às vezes bate aquela vontade de entrar em um training camp, treinar, sair na porrada todos os dias e lutar, mas o foco hoje são meus alunos. É fazer as crianças crescerem fortes e os alunos evoluírem, dentro e fora dos tatames. Tem muita gente que conta comigo para isso.

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