Ricardo Libório ao lado do mestre Carlson Gracie. Foto: Reprodução
Há 30 anos, no primeiro Campeonato Mundial de Jiu-Jitsu organizado pela IBJJF, no Rio, o lutador Ricardo Libório foi eleito o faixa-preta mais técnico do torneio numa escolha por um comitê de notáveis responsáveis pela idealização do evento, em 1996. Além do casca-grossa formado por Carlson Gracie, foram eleitos JP Salgado (GB, faixa-marrom), Roberto Atalla (GB, roxa) e Luca Atalla (GB, azul).
Curiosamente, Libório seguia carreira numa gerência do Banco do Brasil, e era até patrocinado pelo banco estatal. Ele poderia ter seguido carreira no mundo administrativo e financeiro, mas o Mundial ajudou a mudar sua trajetória.
O campeonato, realizado no primeiro fim de semana de fevereiro de 1996, no ginásio do Tijuca Tênis Clube, foi prestigiado por nove países: França, Holanda, Suíça, Emirados Árabes, Itália e Cuba, além de Brasil, Japão e EUA.
Libório, diante de cerca de 4 mil espectadores, sobressaiu por alguns fatores. Finalizou quase todos os seus oponentes, com exceção da semifinal do absoluto, contra Léo Castello Branco. Com 83kg, ele venceu caras bem mais pesados – como o judoca holandês Remco Pardoel, via chave de braço da guarda fechada, ele que era famoso por suas aparições no UFC. E o judoca brasileiro Marcelo Figueiredo.
Voltou para casa com o ouro no peso e a prata no absoluto, ao ceder o título ao colega Amaury Bitetti, de sua escuderia.
Trinta anos depois daquela vistosa atuação no Tijuca, Libório analisa para o GRACIEMAG.com como o leque tático e técnico do Jiu-Jitsu esportivo envelheceu – ou amadureceu – de lá para cá.
Confira os melhores momentos da conversa, com o repórter Marcelo Dunlop. Oss!
GRACIEMAG: Nestes 30 anos do Mundial, que técnicas você crê que envelheceram bem, e que posições parecem superadas ou esquecidas?
RICARDO LIBÓRIO: Ao meu ver, o que envelheceu melhor no nosso esporte não foram as técnicas – mas, principalmente, os princípios do Jiu-Jitsu. Há três conceitos fundamentais para aprender a “ler” o adversário: distância, postura e ângulos. Esses princípios nunca envelhecem e continuam sendo a base de qualquer grande atleta. Tecnicamente, claro, o Jiu-Jitsu evoluiu muito. Hoje vemos um jogo muito mais sofisticado, com lapelas, inversões e inúmeras variações de guarda.
E as finalizações, mudaram?
Creio que as finalizações clássicas, como o armlock, triângulo e o controle das costas, continuam decidindo campeonatos. Isso mostra que, por mais que o esporte siga evoluindo, os fundamentos permanecem. Acredito que toda evolução é bem-vinda, desde que o Jiu-Jitsu continue sendo eficiente não apenas como esporte, mas também como uma arte capaz de preparar a pessoa para uma situação real de defesa pessoal. No fim, tudo é Jiu-Jitsu. Os detalhes mudam, mas os princípios permanecem.
E que detalhe técnico foi crucial para sua campanha triunfal, em 1996?
O que mais me marcou não foi uma técnica específica, mas a voz de mestre Carlson Gracie. Eu ouço até hoje o Carlson gritando na grade: “Finaliza, Libório!”. Essa é uma lembrança que nunca saiu da minha cabeça. Aquele Mundial mudou a minha vida. Foi ali que tive a certeza de que era esse o caminho que eu queria seguir. Pouco tempo depois, tomei uma das decisões mais importantes da minha vida: deixar a segurança do emprego no Banco do Brasil para me dedicar integralmente ao Jiu-Jitsu. Não foi uma decisão fácil. Exigiu sacrifícios, incertezas e muito trabalho. Mas, olhando para trás, eu faria tudo de novo. Não tenho um único arrependimento. O Jiu-Jitsu me deu muito mais do que títulos; me deu um propósito, e uma missão na vida.
Acha que alguma técnica deu uma sumida, de lá para cá?
Naquela época, a guarda fechada era uma posição temida no Jiu-Jitsu. Muitos atletas baseavam seu jogo nela. E o armlock era uma das finalizações mais destacadas. Hoje, o esporte evoluiu, o jogo ficou mais dinâmico, com novas guardas e transições. Vale afirmar que a regra ajudou o jogo a mudar. Com isso, algumas posições clássicas perderam espaço nas competições, mas acredito que continuam eficientes. Creio que as técnicas clássicas nunca serão superadas. Elas apenas evoluíram no esporte. O bom feijão-com-arroz segue funcionando, e vai salvar campeões de qualquer geração.
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