Lucas Gripp destacou a importância do Jiu-Jitsu na infância – Foto: arquivo pessoal
Quando fala sobre o impacto do Jiu-Jitsu na infância, professor Lucas Gripp não se baseia apenas nos anos dedicados ao ensino. Antes da formação de seus alunos, ele também foi uma criança que encontrou no tatame um ambiente capaz de transformar sua jornada.
Ele guarda uma fotografia antiga, registrada quando ainda era faixa-laranja, que representa uma das lembranças mais marcantes da sua infância. “Receber minha faixa-laranja foi um dos momentos mais marcantes pra mim. Até hoje lembro da emoção daquele dia. Na época eu não entendia completamente o significado daquela graduação, mas sabia que tinha conquistado algo muito especial, e por isso guardo essa foto como lembrança.”
Lucas Gripp relembra com carinho o dia em que conquistou a faixa laranja – Foto: arquivo pessoal
Lucas iniciou sua trajetória no Jiu-Jitsu em 2004, aos 12 anos, em Nova Friburgo, no Rio. Incentivado por um familiar, encontrou no esporte muito mais do que uma atividade física. “Com o tempo percebi que o Jiu-Jitsu estava me ensinando muito mais do que técnicas. Aprendi a respeitar meus professores, meus colegas, a lidar com derrotas, controlar minhas emoções e entender que a evolução vem com disciplina, paciência e constância.” Mais de vinte anos depois, já como faixa-preta, professor e integrante da equipe da matriz da Gordo Jiu-Jitsu, em Weston, na Flórida, ele busca transmitir às novas gerações os mesmos valores que recebeu quando era criança.
“Quando vejo um aluno entrando pela primeira vez no tatame, lembro de mim. Talvez ele ainda não saiba, mas aquele ambiente vai ajudá-lo no desenvolvimento da confiança, responsabilidade e maturidade para toda a vida.” Desde que começou a dar aulas, em 2018, Lucas percebe que as maiores conquistas raramente são medalhas ou graduações. “Os pais normalmente procuram uma boa escola porque querem que o filho aprenda defesa pessoal. Com o tempo, percebem que as maiores mudanças aparecem no comportamento da criança.”
Segundo ele, o tatame ensina valores que acompanham os alunos para além da academia. Respeito, disciplina, trabalho em equipe, autocontrole e a capacidade de lidar com erros fazem parte da rotina de cada treino. “No Jiu-Jitsu a criança começa a entender que errar não significa fracassar, mas que faz parte da evolução.”
Entre as histórias que marcaram sua carreira está a de Thiago Botelho e seu filho pequeno, Daniel. Lucas conheceu Daniel nas aulas infantis e logo começou a dar aulas para os dois. O esporte começou como uma atividade extracurricular – após o trabalho e a escola eles frequentavam a aula do professor Lucas e isso se tornou em um projeto compartilhado entre pai e filho, que ia muito além do tatame.
O Jiu-Jitsu desenvolve valores que a criança levará para toda a vida – Foto: arquivo pessoal
“Primeiro acompanhei a evolução do Daniel. Depois tive a oportunidade de ensinar os dois juntos. Como professor, foi muito especial acompanhar essa caminhada em família”, diz Lucas. A graduação de Daniel para a faixa-cinza aos 9 anos tornou-se um desses momentos inesquecíveis. “Cada faixa representa meses de dedicação e aprendizado. Quando a família participa desse processo, a conquista ganha um significado ainda maior.”
Para Thiago Botelho, a sensibilidade do professor foi essencial: “O Lucas foi fundamental para criar o interesse do Dani no Jiu-Jitsu. Para uma criança, a figura do professor é primordial, criando uma relação baseada em confiança e respeito. Imagino que seja muito difícil manter a atenção de dez, 12 crianças de 6 anos durante uma hora de aula, mas sempre vi o Lucas conseguir isso com maestria.”
Nos últimos anos, Lucas também percebeu um crescimento expressivo da participação feminina nas aulas infantis, algo que considera extremamente positivo para o desenvolvimento da modalidade. “É muito gratificante ver cada vez mais meninas aprendendo Jiu-Jitsu desde pequenas. Elas desenvolvem confiança, aprendem a se defender e entendem que também podem ocupar esse espaço com naturalidade.”
Mesmo trabalhando diariamente com alunos que sonham em competir, Lucas acredita que o maior objetivo do professor é formar pessoas: “Nem toda criança será campeã, e tudo bem. O mais importante é que ela saia do tatame mais disciplinada, mais respeitosa, mais confiante e preparada para enfrentar os desafios da vida.”
Ao olhar para trás, ele percebe que a emoção que sentiu ao conquistar a faixa-laranja continua presente sempre que participa da graduação de um aluno. “Talvez algumas dessas crianças também guardem uma fotografia da infância e, daqui a vinte anos, lembrem desse momento com o mesmo carinho que eu lembro da minha. Se isso acontecer, vou sentir que cumpri meu papel como professor.”
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