Faixa-preta formado na Gracie Barra, o professor Fabrício Lopes tem se especializado em lapidar instrutores e ajudá-los a ensinar Jiu-Jitsu da maneira mais clara possível. O GRACIEMAG.com bateu um papo com o faixa-prea especialista em mentoria, e como ele tem analisado a nova safra de instrutores em tantas academias espalhadas pelo planeta.
GRACIEMAG: Os campeonatos atraem cada vez mais lutadores, o esporte se expande e há academias em todas as metrópoles do planeta. E os instrutores, vão conseguir acompanhar essa demanda?
FABRÍCIO LOPES: Acredito que o maior desafio é o fato de que ser um bom praticante e ser um bom instrutor são habilidades completamente diferentes. Muitas pessoas se tornam tecnicamente proficientes, mas ensinar exige comunicação, observação, paciência, liderança e a capacidade de se adaptar a diferentes tipos de alunos. O fato de alguém conseguir executar uma técnica com maestria não significa que consiga explicá-la de uma maneira que outros possam entender e aplicar.
Aprender a ensinar é outro campo então?
Sim. Há outros desafios. Por exemplo, muitos instrutores mais jovens se desenvolvem em um ambiente onde a informação é abundante. Hoje, qualquer pessoa pode assistir a técnicas online. O desafio está em ajudar os futuros instrutores a organizar essas informações, compreender os princípios fundamentais e transmiti-las de forma eficaz. Ensinar não se trata de mostrar o que você sabe. Trata-se de ajudar os outros a aprender.
Na sua visão, o que tem mudado na formação de instrutores?
Há dez anos muitos instrutores se desenvolviam principalmente por meio da observação e da experiência. Você aprendia passando anos no tatame, auxiliando nas aulas e assumindo gradualmente mais responsabilidades. Hoje, o desenvolvimento de instrutores tornou-se mais estruturado. Muitas organizações agora possuem programas formais para instrutores, recursos educacionais e sistemas projetados para ajudar os treinadores a aprimorar suas habilidades de ensino. Ao mesmo tempo, os alunos mudaram. Os alunos de hoje esperam mais explicações, mais estrutura e uma compreensão mais clara de por que as coisas funcionam.
O que os professores qualificados precisam ter para não desapontar os alunos e alunas?
Como instrutores precisamos ser capazes de nos comunicar de forma eficaz com crianças, adultos, competidores, praticantes recreativos e pessoas de diferentes origens. O papel do instrutor hoje é mais amplo do que nunca. O conhecimento técnico continua sendo importante, mas a comunicação e a liderança tornaram-se igualmente relevantes.
Como você identifica um jovem com potencial para se tornar um instrutor completo?
A primeira coisa que observo é a curiosidade. Os futuros instrutores geralmente são aqueles alunos que fazem perguntas, prestam atenção aos detalhes e querem genuinamente entender a arte, em vez de apenas colecionar técnicas. Também busco humildade e consistência. Ensinar é uma responsabilidade de longo prazo. Alguém que é confiável, respeitoso e disposto a continuar aprendendo geralmente tem mais potencial do que alguém que é apenas talentoso.
Há outra qualidade importante?
Sim, a empatia. Os melhores instrutores se importam em ajudar os outros a evoluir. Eles gostam de ver o sucesso das outras pessoas. A habilidade técnica pode ser desenvolvida com o tempo. O caráter, a paciência e o desejo de servir ao próximo são, muitas vezes, indicadores mais fortes do potencial futuro de ensino.
Qual é o princípio mais importante ao formar instrutores talentosos?
Ao meu ver, é a capacidade de ajudá-los a entender que o ensino gira em torno do aluno e não do instrutor. Muitos instrutores iniciantes concentram-se em demonstrar seu próprio conhecimento. Os excelentes instrutores focam em tornar a informação acessível às pessoas que estão à sua frente. Incentivo os futuros instrutores a desenvolverem a capacidade de observar, ouvir e adaptar-se. Cada aluno aprende de uma maneira diferente. A responsabilidade do instrutor é encontrar a melhor forma de transmitir os mesmos princípios a indivíduos distintos. O objetivo não é criar alunos que dependam do instrutor para sempre. O objetivo é formar pensadores independentes que, com o tempo, sejam capazes de ajudar outras pessoas.
Qual era o erro mais comum ao formar instrutores nas últimas décadas?
Pelo que estudo e pesquiso, creio que havia uma ideia geral de que a excelência técnica gerava, automaticamente, excelência no ensino. Em gerações anteriores, muitos instrutores aprendiam por imitação. Eles copiavam o que seus professores faziam e repetiam os mesmos métodos. Embora isso tenha produzido muitos praticantes excelentes, às vezes deixava lacunas na comunicação e no desenvolvimento do instrutor. Muitas vezes, esperava-se que os alunos simplesmente descobrissem as coisas por conta própria com o passar do tempo. Hoje, entendemos que o ensino, em si, é uma habilidade que deve ser desenvolvida de forma intencional. Os melhores instrutores sabem preservar as tradições, os valores e os padrões técnicos do Jiu-Jitsu Brasileiro, mas também reconhecem a importância da comunicação, da mentoria e do aprendizado estruturado. Na minha opinião, o futuro da arte depende da formação não apenas de melhores atletas, mas também de melhores professores.
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