Após a partida doída e repentina do professor Ulpiano Malachias, falecido em maio após desistir da vida, centenas e centenas de brasileiros, californianos, texanos, colegas e adversários o homenagearam com belas histórias nas redes sociais.
Mas como era o Piano na opinião dele próprio?
A equipe GRACIEMAG.com colheu algumas das melhores frases do já saudoso professor, pai e amigo, em entrevistas concedidas à revista e ao nosso portal, de 2010 até 2026.
Vá na paz, grande fera.
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“Eu tinha 17 anos em Belo Horizonte, e fui treinar na academia do Erik Wanderley. No primeiro mês de Jiu-Jitsu, em 1998, um cara me finalizou na chave de braço e eu bati. Ele simplesmente ignorou meus tapinhas e me machucou sério. Um mês depois, tirei o gesso e voltei para a academia transformado. Eu era outra pessoa, mais casca-grossa do que nunca. Era assim que as coisas funcionavam no Brasil, nos anos 1990.”
“As pessoas não gostavam de mim. Eu sou tão competitivo que achavam que eu era mau. Precisei modificar minhas atitudes. Mestre Carlinhos, Marcio Feitosa e Flavio Almeida mostraram para mim como eu devia tratar as pessoas, me dirigir a elas. E assim passei a ganhar o respeito de todos. Com eles três, aprendi enfim que o Jiu-Jitsu é a arte da gentileza, uma arte suave de fato.”
“Me mudei para os Estados Unidos em 20002. Queria tentar viver fora do Brasil. Eu sabia que não seria nada fácil. Eu tenho diploma em administração e tudo que eu precisava eu tinha no Brasil. Mas optei por deixar tudo para trás e recomeçar, sem conhecidos, sem apoio e sem facilidades.”
“Trabalhei nos Estados Unidos como lavador de pratos. Consegui depois uma vaga de leão de chácara num bar brasileiro, aquela confusão. Era o modo que eu tinha de fazer algum dinheiro e seguir malhando e treinando.”
“Em tudo na vida é preciso ter sorte. Quando eu ralava como segurança, en 2004, fiquei amigo da atendente do bar. Quem era? A filha de Rorion, Riane Gracie. Logo ela me apresentou para a família, eu passei a treinar com Royce e ajudá-lo na academia, no início dos anos 2000. Por três anos, como faixa-roxa, viajei pelo mundo todo com meu herói, ajudando-o em suas últimas lutas, em aulas e seminários.”
Professor Ulpiano com Jon Jones e Tussa. Foto: Reprodução
“Comecei a morar com meus velhos amigos da GB, e em 2006 fui surpreendido com a faixa-preta pelos mestres Carlos Gracie Junior e Draculino. Eu estava pronto para lutar o Campeonato Asiático de marrom. Quando eu mesmo não acreditava muito em mim, eles acreditaram. Voltei do Japão com a medalha de ouro.”
“Ao decidir abrir minha academia, escolhi uma região onde o aluguel era mais barato. Abri a GB Santa Ana em dezembro de 2007. Amo aquela escola e sua gente, sempre leal e dedicada. Como meu início no Brasil, conheci pessoas que trabalhavam duro e não tinham dinheiro sobrando. O pouco que eles ganhavam, eles valorizavam muito, e eu entendia que eles estavam investindo quase tudo que possuíam no Jiu-Jitsu, em meus ensinamentos. Então eu fazia tudo para retribuir nos tatames.”
“Quando abri minha primeira academia GB, eu era proprietário, administrador, faxineiro, cobrador e instrutor. Em dois anos, passei a ter mais de 200 alunos matriculados. Quase chorava ao ver os tatames cheios, e perceber quantas vidas consegui mudar.”
“Gosto de ir nas escolas dos alunos, fazer demonstração de Jiu-Jitsu. Outro dia na Califórnia, cruzei com um cara na rua. Ele parecia bem acima do peso, então eu o convidei para fazer uma aula na academia. Ele apareceu, e no mesmo dia recebi uma mensagem dele. Dizia que, após aquele único dia de Jiu-Jitsu, eu havia mudado sua vida para sempre. Minha vida é isso. Eu cuido das pessoas, dos meus alunos. Eles são todos parte da minha família.”
“Com mestre Carlinhos, na Califórnia, aprendi a principal lição que ele sempre nos passou. Sobre a importância de ajudar quem estiver ao nosso lado.”
“Em novembro de 2010, abri minha primeira GB no Texas. Eu não conhecia ninguém e o Draculino estava a milhas e milhas de distância. Aprendi muito, sobre gestão inclusive.”
“Aprendi na GB que campeonatos têm seu lugar no ambiente do Jiu-Jitsu, mas devemos enxergar a arte como uma ferramenta vital para todos os caminhos da vida, e para alunos de todos os perfis e idades. O professor pode e deve incentivar quem tem a flama da competição nos olhos, mas os campeonatos não devem ser o foco exclusivo de uma academia de Jiu-Jitsu. Pois isso há de espantar 80% de seus alunos e clientes em potencial.”
“Minha maior meta como professor é a de contusão zero entre os alunos. Quem se machuca larga os treinos por meses, isso se não largar o Jiu-Jitsu para sempre. É preciso organizar as turmas e horários com inteligência. Sempre cuidem bem de seus alunos e alunas.”
Também aprendeu alguma lição inestimável com o professor Piano? Deixe nos comentários.
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