Grande mestre George com o irmão mais velho e professor, Carlos Gracie.
Aquela edição do velho “Jornal do Brasil” trazia poucas fotografias e textos suculentos, como de hábito. Os assuntos eram os de sempre, manjados pelos leitores no Rio de Janeiro: Flamengo encara o time do Vasco da Gama, escaramuças em Cuba e na Argentina, joias furtadas por gatunos no bairro da Glória. Muita empolgação em torno do bloco “Sou eu mesmo”, com seu som de jazz. Havia também dicas importantes para curar hemorróidas e uma coluna com palpites quentes para jogar no bicho. Epa, não há como se enganar: trata-se de um jornal antigo mesmo, do início dos anos 1930.
Espiando melhor, o leitor fica por dentro das promissoras minas de diamante em Mato Grosso, do sucesso do filme sonoro “O veleiro de Shangai” e repara que, na arbitragem do Fla-Vas, está o notório lutador e professor de artes marciais Manoel Rufino dos Santos. Infelizmente nada sobre a novíssima música “Com que roupa?”, o primeiro sucesso de Noel Rosa dos 259 sambas que faria em vida.
A reportagem de maior valor de fato estava nas páginas esportivas, entre notas sobre remo, ping-pong, voleibol e turfe, com menções aos potros Gringazo, Urubu e Adios Amigos.
O jornal anunciava a inauguração de um novo espaço, ideal para jovens interessados num esporte que não se baseava só na força, mas na inteligência. Na noite de sábado, 6 de setembro de 1930, véspera de feriado, abrira a Academia de Jiu-Jitsu do Rio de Janeiro, na rua Marquês de Abrantes, número 106. Uma noite histórica na então capital do país.
Meses antes, em julho, realizara-se no Uruguai a primeira Copa do Mundo de futebol. O Empire State Building começava a ser construído em Nova York, e Plutão acabara de ser descoberto por um astrônomo americano. O clube de futebol do São Paulo também era fundado. E, em poucos dias, o fã de boxe Getúlio Vargas assumiria o governo do Brasil, após um dramático golpe de estado. No Rio, porém, o papo era o Jiu-Jitsu.
Dirigida por Donato Pires dos Reis, inspetor fiscal e recém-chegado do Pará, a Academia teria aulas de defesa pessoal ministradas por dois talentos do esporte: o professor Carlos Gracie, 28 anos, e o seu irmão e aluno, o promissor monitor George Gracie, de 18.
Os tatames da Academia de Jiu-Jitsu, de acordo com o “Jornal do Brasil” e outros diários, foram inaugurados com uma série de apresentações de defesa de golpes de faca. Professor Carlos Gracie fez um combate de exibição com um voluntário, praticante da luta romana, Edgard Santos Rocha, e finalizou o grandalhão de 90kg em 2min40s.
Para declarar aberta a escola, nada de garrafas de champanhe, e sim um inebriante discurso proferido pelo redator Alarico Cintra, poeta, historiador e autor de livros infantis, um dos primeiros matriculados na academia.
Relembre as palavras de mestre Alarico, naquela noite memorável:
“Meus senhores,
Aos dignos representantes da imprensa desta capital, desde já manifestam, por meu intermédio, os professores Donato Pires dos Reis, Carlos Gracie e George Gracie, efusivos agradecimentos pela honra de suas presenças nesta sala. Onde, preliminarmente, eles vão demonstrar o melhor método de defesa pessoal até hoje conhecido para o homem fino, incapaz de se afeiçoar a armas de fogo e a instrumentos fatais ao nosso semelhante.
“O Jiu-Jitsu, esse recurso formidável de defesa pessoal, está sempre conosco, caracterizando o sistema de luta a prudência e a segurança com que, armados nós, apenas com as forças naturais dos nossos órgãos, pelo conhecimento dos pontos melindrosos do corpo humano e dos golpes infalíveis para pormos em xeque as articulações do agressor, serenamente podemos reagir na contingência dos ataques dos maus, dos degenerados, dos perversos, que avultam na coletividade social.
“Nossos assistentes aqui, pela visão dos fatos, ficarão habilitados a afirmar aos aquinhoados de bíceps de atletas, covardemente usados muitas vezes em cima dos fracos, na mansa despreocupação de que jamais poderão ser dominados, que precisam dosar suas atitudes de atrevimentos e provocações, tão próprias de certos indivíduos pandos de arrogância.
“Todo aquele que se tornar senhor dos segredos das chaves do Jiu-Jitsu ficará apto a fechar os instintos do mau, do tarado, do assassino, na sala escura de sua própria consciência. Vai ser capaz de dominar, sem custo, criaturas nocivas nos meios sociais, criaturas que não valem o clássico tiro das suas vítimas, de repercussões dolorosas, num lar até então feliz, cheio de bondade, só um chefe que se viu arrastado ao assassínio pela contingência orgânica da sua inferioridade física.
“A defesa social encontra, portanto, no Jiu-Jitsu, o melhor meio de realizações proveitosas, fora do campo das violências deprimentes a que recorrem as autoridades para dominarem os desordeiros que, na maioria dos casos, habitualmente aparecem como heróis de desordens pela ilusão em que vivem de ninguém lhes surgir à frente a lhes exprobrar os desatinos.
“Meus distintos amigos, professores Donato Pires dos Reis, Carlos Gracie e George Gracie são mestres de Jiu-Jitsu – esse meio excelente de lutar, generalizado entre os nipônicos pigmeus, transformados assim em dominadores de gigantes. Os três já se manifestaram, pelos termos das cartas às redações de jornais, como homens decididos às corporificações das suas promessas, desde quando se propõem a medir vantagens contra qualquer pessoa habilitada, de qualquer outra escola de luta corporal.
“Não devo, assim, prosseguir na luta com as palavras. Também os prospectos da Academia de Jiu-Jitsu habilitarão melhor os dignos senhores representantes da imprensa a conceituarem sobre o patriótico empreendimento que marcará, sem dúvida, um grande acontecimento de palpitante desinteresse da nossa mocidade, ainda empolgada por esportes nos quais, geralmente, a força – e não a inteligência – continua a definir e apontar os campeões, os vitoriosos. Avante!
“Que as almas dos fracos de corpo escutem, pelos quatro cantos do Brasil, as nossas palmas de animação à esta benemérita trindade patrícia – os senhores Donato, Carlos e George – que se propõe a diminuir as estatísticas dos assassínios e os hóspedes dos cárceres.”
Há quase cem anos. Direto do túnel do tempo.
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