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Lições de Jiu-Jitsu do professor Lucas Araujo

Professor da Alliance Key Biscayne, em Miami, com títulos mundiais pela IBJJF no currículo, Lucas Araujo é a prova de que a resiliência no tatame, aliada a uma preparação meticulosa, pode superar qualquer adversidade. Lucas personifica a união entre a excelência competitiva e o propósito de formar alunos de caráter exemplar, ensinando disciplina e respeito através da arte suave. Prepare-se para descobrir os bastidores de uma rotina de alta performance e os planos de quem não busca apenas acumular medalhas, mas sim elevar o patamar do “estilo de vida” que define a nossa comunidade, valorizando o processo tanto quanto a linha de chegada.

GRACIEMAG: Você costuma dizer que dar aulas de Jiu-Jitsu é o seu grande talento e propósito de vida, certo? Quais os benefícios que um professor de Jiu-Jitsu oferece à comunidade onde ele atua?
LUCAS ARAUJO: Foi através do Jiu-Jitsu que encontrei uma forma real de contribuir para a formação das pessoas e impactar positivamente a comunidade onde atuo. Um professor de Jiu-Jitsu oferece muito mais do que técnica. Ele ajuda a formar caráter, ensinando disciplina, respeito, autocontrole e resiliência. Esses valores aprendidos no tatame se refletem diretamente na vida pessoal, familiar e profissional dos alunos. Além disso, o professor cria um ambiente seguro e estruturado, especialmente importante para crianças e jovens, fortalecendo a autoconfiança, prevenindo o bullying e promovendo o desenvolvimento físico e emocional. Quando bem conduzido, o Jiu-Jitsu se torna uma ferramenta de educação, inclusão social e construção de uma comunidade mais forte e saudável.

Além de professor, você tem uma carreira vitoriosa como competidor. Quais foram as suas principais conquistas e o que você aprendeu com elas?
Além de professor, sempre mantive uma carreira ativa como competidor, que foi fundamental para a minha formação dentro e fora do tatame e me manteve atualizado nas técnicas. Entre as principais conquistas estão dois títulos mundiais No-Gi, três títulos Pan-Americanos, três campeonatos brasileiros e pódios em campeonatos de altíssimo nível, tanto de kimono quanto no sem kimono pela IBJJF, maior e mais respeitada confederação mundial no Jiu-Jitsu, competindo entre os melhores atletas do mundo. E também permaneci como primeiro do ranking na minha divisão nos anos de 2022 e 2023. Essas conquistas me ensinaram muito mais do que vencer. Sempre ouvi um ditado popular que diz que o importante não é a linha de chegada, mas sim a caminhada. Quando somos jovens, nem sempre conseguimos compreender o real significado disso. Eu mesmo achava que essa frase servia como consolo para quem não havia conquistado grandes resultados. Com o tempo, porém, aprendi o que esse ditado realmente nos ensina: a importância de valorizar o processo. Um dia, nossa força para competir vai diminuir, as medalhas vão acabar enferrujando na parede, e o que realmente permanecerá serão as experiências vividas, os amigos que fizemos pelo caminho, os obstáculos superados e todas as memórias construídas ao longo da jornada.

Voltando ao trabalho à frente do dojô, qual é o segredo para transformar um atleta mediano num grande campeão?
Hoje em dia temos acesso a praticamente tudo: diferentes métodos de treino, estratégias de preparação física, dietas, estudos e inúmeras formas de chegar ao mais alto nível de uma competição. Os recursos estão disponíveis para todos os atletas. Na minha opinião, o que realmente diferencia um atleta mediano de um grande campeão é a capacidade de abdicar. Quanto maior a disposição para abrir mão de conforto, distrações e atalhos, maiores são as chances de alcançar o topo. O sacrifício diário e a disciplina constroem um senso profundo de merecimento, que é decisivo nos momentos mais difíceis. Quando o atleta acorda cedo, treina todos os dias sem falhar, segue a dieta com propósito, descansa como um atleta de alto nível e cuida da recuperação com seriedade, ele cria algo que ninguém pode tirar: a certeza do trabalho bem feito. Não dá para mentir para si mesmo. E é justamente essa convicção que, diante da adversidade, faz o atleta se tornar maior do que o desafio. Mesmo que os resultados demorem, mais cedo ou mais tarde esse processo transforma qualquer atleta comprometido em um grande vencedor.

Você está sempre treinando com ótima performance contra a garotada da sua equipe. Quais são os macetes para os atletas da divisão Master fazerem bonito contra os atletas adultos?
Nessa fase da carreira, o atleta da divisão Master precisa entender que fisioterapia e musculação já fazem parte do treino tanto quanto o tatame (risos). A carga de treino não pode mais ser a mesma de quando tínhamos 20 anos, então o caminho passa por inteligência e estratégia. Recomendo um treino periodizado, elaborado por um profissional de alta performance, além de trabalho constante de mobilidade e sessões regulares de recuperação, como fisioterapia, sauna, crioterapia e tudo o que estiver ao alcance para manter o corpo saudável e competitivo. Agora, a dica de ouro é simples: contra os mais novos, use a experiência e a regra a seu favor. Sempre que puder, dê aquela “amarradinha”, controle o ritmo da luta e faça o tempo trabalhar para você — mas sem esquecer da punição (risos). Experiência bem usada continua sendo uma grande vantagem no tatame.

Qual é a frase motivacional que você gosta de repetir para você mesmo quando está passando por uma situação difícil na carreira?
Eu não tenho frases motivacionais pré-estabelecidas. Mas, se fosse para escolher uma, seria algo que sempre digo aos amigos: “o próximo campeonato é sempre o melhor.” Gosto dessa frase porque ela funciona nos dois sentidos. Quando venço, ela me lembra que sempre existe espaço para evoluir e performar ainda melhor na próxima competição. E quando o resultado não vem como eu esperava, ela me ajuda a virar a página rapidamente. Ela reforça a ideia de que sempre há uma nova oportunidade logo ali, sem tempo para ficar preso ao que já passou. Essa mentalidade me mantém em movimento, focado no processo e motivado a melhorar continuamente. Para mim, é simples: o próximo campeonato é sempre o melhor.

Como você se define como professor de Jiu-Jitsu?

Eu me defino como um professor que acredita no Jiu-Jitsu como ferramenta de transformação. Meu papel vai muito além de ensinar técnicas: é formar pessoas, respeitando o processo individual de cada aluno e mantendo um ambiente seguro, disciplinado e positivo. Acredito que o professor deve liderar pelo exemplo, dentro e fora do tatame. A filosofia da minha escola segue os princípios da Alliance Jiu-Jitsu: excelência técnica, ética, disciplina, respeito e evolução contínua. Trabalhamos com metodologia, atenção aos detalhes e alto padrão técnico, mas sempre valorizando o trabalho em equipe, a humildade e o senso de comunidade. Acreditamos que o sucesso individual é consequência de um ambiente forte e bem estruturado, onde todos crescem juntos. Para se tornar um professor relevante, o primeiro passo é nunca esquecer de onde veio. Um bom professor jamais se distancia da mentalidade de faixa-branca: curiosa, humilde e aberta ao aprendizado. Ele precisa ser o primeiro a estudar, a se atualizar constantemente e, acima de tudo, manter a mente aberta para novas técnicas e conceitos, evitando se tornar obsoleto. Outra regra fundamental é entender que o professor de Jiu-Jitsu é, de certa forma, um guardião da arte suave. Ele recebe esse conhecimento para preservar, desenvolver e transmiti-lo à próxima geração, estando sempre pronto para servir. Nesse sentido, o papel do professor é quase o oposto do papel do atleta. O atleta, em muitos momentos, precisa ser mais individualista, competitivo e até orgulhoso para performar no mais alto nível. Já o professor vive para o coletivo: ele se doa, compartilha, forma pessoas e precisa cultivar a humildade constantemente, mantendo a consciência de que sempre há algo novo a aprender.

Quando alguém hesita em treinar Jiu-Jitsu, o que você costuma dizer para convencer essa pessoa a vestir o kimono e começar a jornada na arte suave?
Normalmente eu digo que o Jiu-Jitsu não exige que a pessoa esteja pronta para começar; ele ajuda a pessoa a se tornar pronta ao longo do caminho. Não é sobre força, idade ou experiência prévia, mas sobre disposição para aprender e evoluir. Além disso, o Jiu-Jitsu tem uma característica única: ele se adapta ao praticante. Cada pessoa consegue treinar e evoluir dentro das suas próprias condições físicas, limitações e objetivos. Por isso, sempre existe uma forma segura e eficiente de praticar, tornando a jornada acessível, contínua e possível para qualquer um que decida dar o primeiro passo.

Você também tem experiência no ensino da arte suave para agentes de segurança pública nos EUA. Fale um pouco sobre a relevância dessa parte do seu trabalho.
Os Estados Unidos, como uma das maiores potências do mundo, sempre tiveram uma visão muito pragmática sobre eficiência e resultados, e com o Jiu-Jitsu não foi diferente. O país abraçou a arte suave de forma impressionante, e a cada dia mais americanos passam a praticar ao perceberem os benefícios reais e o valor que o Jiu-Jitsu oferece. Como forma de gratidão por todo o cuidado e respeito que a sociedade americana tem com a nossa arte marcial, vejo o ensino do Jiu-Jitsu para agentes de segurança pública como uma maneira de devolver isso à comunidade. Trabalhar com policiais de Key Biscayne e Miami-Dade, além de bombeiros e agentes de segurança, é a forma que encontrei de contribuir com aqueles que diariamente cuidam da nossa segurança. O Jiu-Jitsu oferece a esses profissionais mais confiança e controle em situações de alta pressão, ajudando em abordagens mais técnicas, conscientes e respeitosas, além de melhorar a gestão de situações críticas. Um dos maiores ensinamentos da arte suave é a capacidade de se manter confortável no desconforto, algo essencial para quem atua na linha de frente. Dessa forma, esses profissionais, que já estão entre os mais preparados do mundo, passam a ter acesso a uma ferramenta eficiente de defesa pessoal, tornando não apenas suas próprias vidas mais seguras, mas também toda a comunidade ao seu redor.

Qual é o seu grande objetivo para o futuro da carreira?
Vejo a carreira no Jiu-Jitsu como dois caminhos que podem evoluir juntos. O primeiro é o do atleta. Ainda quero continuar competindo nos maiores eventos do mundo, não apenas em busca de resultados, mas para inspirar outras pessoas a acreditarem no processo, na disciplina e na longevidade dentro do esporte, mostrando que é possível manter alta performance com consistência e propósito. O segundo caminho é o do professor, que para mim representa o verdadeiro propósito da arte suave. Quero continuar difundindo o Jiu-Jitsu pelo mundo, levando seus valores para além do tatame e ajudando a construir comunidades mais fortes. O Jiu-Jitsu ensina respeito, autocontrole e compaixão, porque leva o praticante a se conhecer melhor, a entender seus limites e suas qualidades. Um ser humano que se conhece e reconhece suas limitações tende a respeitar mais o próximo e a ser mais seguro de si mesmo. É assim que evitamos conflitos desnecessários e contribuímos para uma sociedade melhor, construída a partir de pessoas mais conscientes e equilibradas.

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